O filme “Michael” chega aos cinemas prometendo mostrar “o bom, o ruim e o feio”, mas a realidade da produção é complexa. Com o envolvimento direto do espólio de Michael Jackson e um orçamento que ultrapassou dezenas de milhões devido a refilmagens de última hora, o longa faz escolhas narrativas que geraram debates intensos sobre a verdade histórica.
A Violência de Joe Jackson: Fato ou Exagero?
O filme abre com cenas fortes de Joe Jackson (Colman Domingo) agredindo Michael e seus irmãos durante os ensaios do Jackson 5.
- Verdade: Embora pareça visceral, a representação é fiel aos relatos do próprio Michael. Em sua famosa entrevista a Oprah Winfrey (1993), ele confessou sentir medo físico do pai e descreveu punições severas com cintos e outros objetos. O filme acerta ao mostrar como esse trauma moldou a busca de Michael por perfeccionismo e sua dificuldade em lidar com figuras de autoridade.
A Descoberta pela Motown
Na tela, vemos o Jackson 5 sendo descoberto por Suzanne de Passe em uma performance eletrizante.
- Ficção: A realidade foi um pouco menos glamourosa. O grupo foi “descoberto” de forma improvisada na casa do cantor Bobby Taylor. Além disso, o filme mostra Michael diminuindo sua idade no início da carreira, o que é verdade, uma estratégia de marketing da gravadora para fazê-lo parecer ainda mais prodígio.
O “Apagamento” de Quincy Jones e o Foco em John Branca
Uma das maiores críticas ao roteiro de John Logan é o pouco destaque dado a Quincy Jones, o produtor por trás de Thriller. Em contrapartida, o advogado John Branca ganha um protagonismo incomum.
- Polêmica: O filme mostra Branca demitindo Joe Jackson por fax. Embora biografias citem momentos de tensão, o protagonismo do advogado no filme é visto por críticos como uma forma de validar sua gestão atual sobre o espólio do cantor, enquanto a genialidade colaborativa de Quincy Jones é reduzida a poucas cenas.
As Acusações de Abuso
A maior controvérsia do filme é o seu ponto final. O longa termina abruptamente em 1988, no auge da era Bad, antes das primeiras alegações de 1993.
- Omissão Estratégica: Reportagens da Variety indicam que o roteiro original incluía o caso Jordan Chandler, mas as cenas foram removidas em uma refilmagem que custou cerca de US$ 50 milhões. O motivo oficial seriam restrições legais impostas pelo espólio, que é proibido por acordos antigos de retratar certos acusadores em tela. Isso resultou em um filme que foca na ascensão gloriosa, mas ignora o declínio jurídico e pessoal da década de 90.
A Reação da Família: Paris Jackson vs. O Filme
Enquanto Jaafar Jackson foi elogiado por “encarnar” o tio, a filha de Michael, Paris Jackson, foi uma das vozes mais críticas nos bastidores.
- Verdade: Paris teria lido versões iniciais do roteiro e solicitado mudanças que não foram atendidas. Ela chegou a criticar publicamente a produção, sugerindo que o filme foca mais no lucro e na limpeza de imagem do que na complexidade humana de seu pai.


